GRES MANGUEIRA: Um "Jesus da Gente" que se identifica?


Olá, pessoal! Tudo bem? No post de hoje trago minhas considerações, reflexões e críticas construtivas sobre o desfile da GRES Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro, que trouxe como samba o título: "A verdade vos fará livre".

Um breve histórico do morro e da escola cabe citar:

O Morro da Mangueira inicia sua história, aproximadamente em 1559, quando oficialmente, da diásopora africana para o Brasil, o tráfico humano de negros para trabalho escravo eram tutelados pelo Estado. Estas pessoas eram confinadas em navios que viviam, sobreviviam em morriam em terríveis condições de vida.
À saber que a desagregação desumana se dava do translado África- Brasil à separação de famílias, tribos e nações para erem submetidos aos maus tratos físicos, psicológicos, culturais, identitários e outros terrores que a colonização nos trouxe e temos reflexos até hoje. 
Mesmo com a tutela do Estado e o "carinho" da Igreja, estes foram obrigados à abandonar sua crenças e se converterem forçadamente ao cristianismo, impostos pelos seus senhores. Muitos conseguiam disfarçar e cultuar seus Orixás e viver sua fé, cultura e identidade, ainda que marginalizados. 
Com o desmonte colonial, a pseudo independência do Brasil e alforria de pretos escravos, o ideal de liberdade ainda era um longo percurso a ser caminhado. Uns a conseguem comprar, outros fogem e próximo à atual Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristóvão, onde havia a casa do então Imperador, havia um morro chamado "Pedregulho", Lá entre pedras, terra, haviam mangueiras e mesmo diante de alguns obstáculos da natureza, os escravos que conseguiam fugir eram perseguidos pela cavalaria para serem recapturados e daí já se sabe, né?
Posteriormente, com o avanço da indústria, comércio, as linhas telegráficas iniciaram suas atividades e o que antes era conhecido como Pedregulho, passou ser chamado de Morro do Telégrafo. Posteriormente, com a chegada da ferrovia, o comércio foi expandido e um deles, uma fábrica de chapéus, ficava às margens da ferrovia coberto por mangueiras. 
Como as paradas eram escassas, eram necessários aos passageiros avisarem ao maquinista que iriam descer "lá nas mangueiras". Daí, um ano após a abolição da escravatura, em 1889, eis que surge a Estação Mangueira. O nome Telégrafo fora preservado, assim como outros espaços do morro que mantém as suas referências até hoje como: Chalé, Buraco Quente, Candelária, Faria e outros. Assim nasce a identidada geográfica e cultural da Estação Mangueira. Logo, esta escola de samba tem um lugar geográfico, na história e tem sua identidade cultural preservada e transformada.
O morro asssim cresce e toma forma a partir das famílias expulsas dos cortiços da área central, demolidos para dar lugar às grandes avenidas e consturções de prédios e apartamentos.  Quem mora na Mangueira em sua totalidade: pais, filhos, netos, bisnetos, tataranetos de esravos alforriados que lutaram por sua liberdade.
Logo, o canto que emana destas pessoas, assim como de outras comunidades, não é midiática, mas emerge de suas histórias, de dores, lutas e perdas que são invisibilizadas pela sociedade e pelo Estado e se torna alvo da opinião pública no carnaval ou no derramamento de sangue pelo conflito dos poderes que estão em paralelo. 

Mangueira, enquanto escola de samba, em sua grande maioria, trouxe à avenida temas emblemáticos com intuito da sociedade refletir e mostrar que no morro não há só crimes, pobreza, abandono do Estado, mas há cultura, resistência, amor, famílias e fraternidade.


Foto: Maurício Almeida/ Estadão Conteúdo
Desde que Leandro Vieira, assume como carnavalesco Estação Primeira de Mangueira, o mesmo traz  propostas de enredos críticos, analíticos, políticos e das grandes questões sociais, tal com o Joãozinho Trinta trazia às escolas em que fora carnavalesco. Os temas são muito bem contextualizados, na narrativa do samba e os demais elementos que o compõem na avenida. 

Foi assim em 2019, com o campeonato com um samba que traça um diálogo amigável com um Brasil que se mostra como país "do bem", mas nega suas identidades culturais e de gênero. Em 2020 não foi diferente. A proposta apresenta um Jesus histórico, isento da construção social de branquitude, da riqueza (lê-se sobre Teologia da Prosperidade), do litúrgico, mas de um Jesus "da gente", que literalmente "está no meio de nós" e (re)conhece as dores e alegrias de cada um que convive, mesmo sem conhecê-los. Esse Jesus histórico é Aquele que o povo acredita e que é partícipe de suas conquistas, vitórias, mas também de suas dores e frustrações.

Foto: Ellan Lustosa/ Estadão Conteúdo

Mangueira trouxe para a avenida a versão do inconsciente coletivo (Jung) que não pode ser verbalizado, mas vislumbrado no imaginário de cada um. De uma pessoa que, embora de origem divina, no século XXI, interage com todas as pessoas de diversos gêneros, etnias e classees sociais, sem fazer acepções destas, pregando sobre o valor da vida, da esperança, da fé e do futuro. Embora amoroso e pacífico, incorora o Jesus revolucionário que não aceita o comércio da sua casa e nem o "mercado de carne barata" (Elza Soares) que é abatida diarmaente pelos aparatos do Estado, muitas vezes pela sua cor e origem.
Isso é uma narrativa, uma metáfora, mas também um contexto presente na realidade das periferias do Brasil e do mundo. 
Mangueira fez um belíssimo desfile e infelizmente pode não conquistar título de bicampeã do carnaval carioca, devido à incompreensão dos "profetas da intolerância" que associam que neste momento sagrado e profano estavam de mãos dadas.
 

Metaforicamente pensar num Jesus, em pleno século XXI, preto, pobre, morador de periferia não é nenhum problema, pecado ou sacrilégio, como muitos colocam para sustentar seus pensamentos racistas, opressores e coloniais.  Pensar num Jesus que está no reflexo de cada um de nós, seres humanos, que assumimos sua fé Nele, não seria enxergar o outro como igual? Então,  qual o problema de pensar na figura histórica e não religiosa de um "Jesus da Gente" corporeificado na figura de uma mulher, de um cigano, de uma pessoa em situação de rua, de um indígena ou de uma pessoa LGBTTQI+? Se negarmos isso, parafraseando apóstolo Paulo " somos mais miseráveis do que pensamos".
Só amem, não julguem!


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