#Indignada: A "demonização" social do cabelo crespo e cacheado

#INDIGNADA é um novo quadro do blog Criloura onde trarei assuntos relevantes da nossa vida cotidiana para discutimos e refletirmos sobre sua existência. Há situações que não percebemos ou mesmo fingimos em não vê-las, mas que estão à nossa frente e precisam ser enfrentadas para que possamos viver em uma sociedade mais justa e igualitária.

O #Indignada de hoje traz à reflexão sobre o comportamento polêmico, meio às crespas e cacheadas de plantão, que diz respeito sobre o uso ou não de quimicas transformadoras nos cabelos.  Pode parecer irrelevante este assunto, mas o mesmo tem causado longos debates dentro e fora das redes sociais, além de um comportamento de "demonização" e até exclusão de quem opta (ou não) pelo uso de quimicas transformadoras nos cabelos.

Decidi escrever este post refletindo sobre duas situações opostas, mas que se esbarram no que tange ao desrespeito às escolhas alheias. As situações ocorreram com duas amigas, a primeira que se viu desprezada e desrespeitada por sua familia e amigos por decidir parar de usar quimicas transformadoras em seu cabelo crespo e deixá-lo natural. A situação chegou a um ponto em que sua mãe chegou-lhe a chamar de "coisa" por ter tomado esta decisão. Se a mãe agiu assim, não preciso comentar do posicionamento do marido e outros próximos, né? A coisa é e continua barra pesada na vida desta querida amiga, que tem enfrentado com dores, dificuldades, mas resistência sobre sua escolha.
Já a outra amiga desabafou com plena indignação de sua visita como consumidora a um espaço, para comprar turbantes e se viu "atacada" por algumas pessoas, adeptas ao cabelo natural, que a "demonizaram" com ódio veemente por escolher transformar seus cabelos quimicamente sob alegação de que ela não era negra por fazer tal opção.

Ambos os assuntos a pensar muito e compartilhar estas indignações.

A primeira impressão é a seguinte: Estamos ou não vivendo em uma batalha ideológica pela (re)afirmação da "sua verdade"? Afinal é guerra ou divergência de idéias?




Sobre este assuntos, existe algumas questões de vários pontos de vista como:

1) Se Deus fez todos iguais, por quê não respeitamos esta igualidade e tendemos à excluir quem não pensa como nós?

2) Se a Constituição Brasileira preza pela liberdade de escolha e expressão, por quê agimos ao contrário, já que somos em defesa da lei?

3) Se a  Discriminação é uma tipificada comop crime previsto no código pena, por quê estas e outras práticas objetivas e subjetivas permeiam nosso universo?

4) Se lutamos contra o RACISMO (supremacia de um raça/grupo sobre o outro, quando um encontra-se em vantagem ou desvantagem sobre o outro) contra negros, indígenas, nordestinos, judeus, gays, e outras minoriais sociais, por quê nós que pertencemos a esta categoria agimos de hostilização com o outro?

5) Segundo o IBGE em 2010, negros e pardos, que se autodeclaram, são mais do que maioria no Brasil. Além deste critério, tem o mais clássico que se avalia o individuo pela cor da pele e pela questão socioeconômica (vide o exemplos dos rolezinhos). Sendo assim, se existe esta maioria no país, consequentemente temos esta mesma maioria com cabelos crespos e cacheados.

 Levando em consideração os fatos acima e os itens citados, percebe-se que o preconceito (ato subjetivo) e a discriminação (ato objetivo) podem ser fatores predominantes para embasar a (re)afirmação destes pontos de vista excludentes, desprezando completamente a história de lutas e inclusão que nossos antepassados e nós batalhamos para que sejam reconhecidas e respeitadas pela sociedade no Brasil e no mundo.

Em outras palavras, acredito que temos uma questão social e histórica muito maior do que aceitar ou não a escolha de quem opta em ter cabelos naturais e/ou com química. Na verdade quem usa destes argumentos para prevalecer suas vontades desconhece sua história e despreza suas verdadeiras raízes que vai além do cabelo natural.


Em hipótese nenhuma nego a relevância dos movimentos de valorização aos cabelos naturais, bem como o direito de opinião de cada um sobre considerar positivo ou negativo às opções existentes e escolhas individuais. Agora transformar opinião em ideologia para "demonizar", massacrar, diminuir, desprezar e excluir o outro, em nome de uma pseudo-padronização que a sociedade (formada por nós) impõe é total desrespeito com a dignidade da pessoa humanam sua história e suas subjetividades.

O sentido de verdade para nós se traduz em respeito à verdade do outro, ainda mais quando se tem algo maior em torno destas relações, que é a justiça e o bem estar individual e coletivo. Esta é uma das bases de valorização e reconhecimento das diferenças e diversidades sociais.

Portanto, vamos respeitar as escolhas que o outro faz e produz em seu próprio corpo e em sua própria vida, já que, cada um de nós tem o seu próprio corpo, sua própria história e sua própria vida e faz dela o que quiser. Sejamos mais nós mesmos e menos o que queremos que o outro seja.



E vocês? O que pensam sobre este assunto? Já foram autores ou réus  de situações como esta?

Beijos e até o próximo post.


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32 comentários:

  1. infelizmente a discriminação do cabelo cacheado quimicamente tratado vem da própria negra,acho um absurdo um negra falar q vc não é negra só pelo fato q ela alisa o cabelo repudio pessoas assim,tem grupo tão radicais no face q menosprezam todas as negras q passam quimica,aplique no cabelo pregam q vc tem q ser do jeito delas não gosto e o texto esta de parabens é algo a se debater pq em um pais ondem a miscigenação de cores e cada tipo de cabelo vem alguém e não aceita o q vc faz no cabelo ,realmente é horrível

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  2. Nossa choquei com essas duas historias, eu percebo esse preconceito em vários grupos do facebook, é triste isso. Eu respeito de verdade a todas e gostaria de ser respeitada igualmente pela minha opção de usar quimica. Texto lindo,espero q abra algumas mentes.

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  3. Gostei muito do pista, amei esse novo espaço criado pra "colocar a boca no trombone" quando entendermos que o respeito ao próximo independente de como ele pensa ou age, tem que vir em primeiro lugar. Tudo ficara bem.

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  4. É meio repetitivo dizer que todos têm seus direitos, quando infelizmente ainda muitos parecem te intimar a fazer as escolhas que não são suas. Participo de grupos intitulados "cachos", "pró cachos", "mais cachos", "sei lá quantos cachos" que parecem me impor o que eles fazem. Não é bem assim. As vezes só queremos informações e atualizações para melhor tratarmos nosso cabelo. Low poo, no poo, BC, tenho de fazer essas coisas pra ser aceita? Não é por ai... Quero escolher o que é melhor pra mim, sem imposição dos outros...

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  5. Só acho falta do que fazer , gente cada um cuida e faz do seu cabelo o que quer, pinta corta deixa sem nada a para com isso. Se for assim as negras de milhares de anos atras não tinham creme de pentear shampoo , e condicionador. Então as "negras naturais" também não são negras pq usam produtos "COMERCIAIS" então não me venha com papo de que é mais negra q fulano por causa que não passo química transformadora. Eu sou negra e era da escravidão em que se dizia o que o negro pode e não pode fazer acabou então hoje faço o que eu quero no meu cabelo pinto de roxo de laranja de vermelho, e loiro de qualquer coisa. Ele é liso em três meses e nos outros enrolado pq é meu cabelo em primeiro lugar sou ser humano com poder de decisão então faço o que eu quero. E se tem alguém que se acha mais negra do que o outro parabéns vc é mais um patético preconceituoso, que também deve pensar que negro deve fica na cozinha , não deve ter nível superior e jamais seria presidente de uma nação.

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  6. Lih

    Pois é. Não falo de grupos A ou B, mas de comportamentos individuais onde pessoas em grupos com o mesmo sentimento sentem-se empoderadas para praticar este tipo de conduta. Uma coisa é mais dolorida: deste tipo de acusação vir de um irmão/irmã, isto é, de uma pessoa que vive as mesmas experiências do racismo e da discriminação de forma igual.

    Beijos e obrigada

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  7. Ana Karla,

    Pois é. Elegi apenas algumas das muitas histórias que ouço e presencio sobre discriminação, preconceito e exclusão pela mesma raíz: porque uma opta em usar cabelo quimicamente tratados e outra opta em usá-lo natural. Tem situações, inclusive, de expulsão da própria casa pelo uso do cabelo natural. Duro é saber que, em pleno século XXI este tipo de comportamento rude ainda é manifesto em nosso meio.

    Beijos e obrigada

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  8. Sheila,

    Com certeza. Até porque a nossa verdade é bem legitima quando ela é suficiente pra gente e pra fazer o outro compreender. A imposição é instrumento para quem quer legitimar a alienação. Beijos

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  9. Helen,

    Sábias reflexões, querida. Obrigada

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  10. Estamos vivendo nosso melhor momento capilar rsrs. Sair por aí e ver cachos, blacks (natural ou megahair), tranças, turbantes em razoável quantidade, pra mim já é algo bastante significativo.
    Acredito que éramos forçadas a manter um cabelo liso, não tínhamos a ousadia de assumir nossas madeixas. Não sinto vergonha desse tempo, mas não tínhamos quem nos representasse, vivíamos segundo às regras de beleza que nos faziam engolir goela a baixo.
    Somos livres! O que nos prende é a nossa autoestima. É ela quem nos diz qual melhor maneira devemos usar nossos cabelos.
    Exigimos tanto respeito, mas por vezes esquecemos de respeitar o próximo, nesse caso, a próxima.

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  11. Vivo em família totalmente miscigenada pois meus pais são negros, porém, na família há brancos, morenos, mulatos, etc. Tenho o meu cabelo quimicamente tratado por uma opção minha, mas eu acho muito bonito ver a mulherada da minha família reunida. Quando isso acontece há o encontro de cachos, cabelos afros, lisos naturais e tudo mais. Bom seria se todos agissem da mesma forma e pudessem viver em paz. Racismo e preconceito que a meu ver é uma ideia 'pré' 'concebida' daquilo que não se conhece, ou, daquilo que se pensa conhecer é pura ignorância e deveria acabar.

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  12. Gostaria de deixar aqui um relato:
    Enquanto algumas tentam impor outras multiplicam o racismo que sofrem. Eu não sou negra e jamais vou saber o quanto de preconceito e racismo um negro sofre nesse país provinciano de ideias que é o nosso. porém apesar de minha cor branca na certidão tenho cabelos bem cacheados, sempre quis experimentar os produtos de um certo salão que prefiro não comentar pois o comportamento das atendentes não é culpa da dona, sei que ele é especializado em cabelos crespos e cacheados mas devia estar escrito: só atendemos pardas e negras se vc não for de a volta. Fui tentar comprar um creme para experimentar e fiquei constrangida pois cada uma das atendentes encarava a mim e meu companheiro que é pardo enquanto estavamos na fila, quando enfim fui perguntar sobre os produtos e valores eu sentia o deboche em cada resposta. Elas se entreolhavam meu marido só olhou pra mim e disse vamos embora ou elas vão humilhar mais. Eu repito nunca saberei o preconceito que um negro sofre. Só acredito que não adianta retribuir preconceito com mais preconceito, meu cabelo não é liso ou ondulado é cacheado logo apesar de branca eu estou nos requisitos para se atendida certo? Errado estou nos requisitos para receber deboche e pouco caso...
    Enfim acho que deviamos nos unir primeiramente como mulheres independente de nossa cor de pele, aliás no brasil ou se é neto ou filho de negros, sou neta e tenho orgulho, mas ja fui motivo de chacota por dizer isto. muitos amigos meus acham piada, engraçado, gostam de gente racista que os separam, somos iguais mas nem todos querem acabar com o racismo e preconceito como vc... Muitos querem fazer concurso de quem é mais branco ou mais negro...

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  13. Parabéns pelo testo. Claro e objetivo! Vai ao encontro do que venho pensando ultimamente....as pessoas não se conformam em apenas discordar, querem bater, excluir, xingar. Faço parte do seu grupo do facebook e fico APAVORADA com o que as meninas escrevem. Que raiva toda é essa? Para quê brigar com o diferente...que ânsia é essa?
    Parabéns!!!

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  14. Sou negra com cabelo liso...a vida inteira sofri com as pessoas perguntando com o que eu alisava meu cabelo.
    Cansada de responder que nao alisava; optei um dia a responder que Alisava com Pente Quente.
    Quando conheci voce Fernanda resolvi mudar mais ainda....Hoje em dia sou Criloura com muito orgulho.
    Vou com muito orgulho no Beleza natural sempre cuidar dos meus cabelos de Cebolinha..mas o cabelo não era liso?
    Sim liso, mas eu judio demais fazendo luzes sendo que sofro de alopecia androgenética.
    Com tudo isso vou brigando por conta do nariz fino, lábios finos, cabelo liso a 50 anos.
    Bora ser feliz.

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  15. AMEI seu post. Um dos grandes problemas dos negros no Brasil e na propria Africa. É a divisão e a falta de consciencia de quando nós separamos, somos mais fracos diantes dos abusos. Eu estou a 8 meses sem passar quimica. Já fiz uma vez a experiência do cabelo 100% natural a 7 anos atraz. E por motivos, que pertence a minha liberdade. Definir os cahos com quimica em 2008. E agora estou cansada deste visual. Vou corta a parte morta em abril. Se eu não gostaria passo quimica outra vez. Sou livre e não preciso de fanatizaçao da raça, para saber o que eu sou e de onde venho.

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  16. É triste ver como as coisas estão funcionando. Conseguimos fazer polêmica em assuntos que são de decisão pessoal.
    Para umas a decisão de assumir seus cachos é a melhor, é como a pessoa se sente bem consigo e consegue enfrentar seu dia a dia de cabeça erguida, para outra pessoa, o melhor é fazer química, ter o cabelo liso. Se há opção que mal há entre uma decisão e outra?
    Não sou suficiente branca para ser chamada de branca em Santa catarina, nem suficiente preta para ser chamada de preta na Bahia. Que diferença faz isso? Haverá discriminação? É uma possibilidade. Se não pela minha cor ,pelo meu cabelo, por minhas origens, acham outros motivos. Qual o poder que isso pode ter sobre mim, sobre os meus valores? Isso eu que vou determinar. Só serei discriminada se eu deixar isso acontecer. Nenhum de nós precisa bater, xingar, para se posicionar. Uma língua branda pode quebrar um osso, já dizia o antigo provérbio inspirado.

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  17. Jaciele:

    "Somos livres! O que nos prende é a nossa autoestima. É ela quem nos diz qual melhor maneira devemos usar nossos cabelos".

    Suas colocações já resumem o que quis dizer em um texto tão longo. Muito obrigada pela contribuição. Realmente estamos vivendo a melhor fase para as mulheres negras que, entre elas, está na valorização e reconhecimento da sua identidade, entre elas a assunção do cabelo crespo. A questão no texto é como as pessoas entendem e querem impor este cabelo sobre o corpo do outro.

    Beijos

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  18. Selma

    Exatamente. Você falou algo interessante que é a alegria e o contentamento de ver sua família reunida e, consequemente, ver todas as cores e texturas de cabelos reunidas. Isso não as diferenciam e nem as distanciam. Ao contrário, parecem que estas diferenças é que as aproximam e, ainda que não haja concordância com a escolha do outro, há o respeito.

    É sobre isso que quero dizer no texto. Beijos e obrigada

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  19. Anônimo,

    Pena não saber o seu nome, mas seu relato foi muito interessante: a prática do preconceito ao inverso. Independente de cor, raça, credo, sexo, origem, etnia ou opção sexual, precisamos respeitar as pessoas. Na situação que você comentou é mais inaceitável ainda, porque você estava no local na condição de cliente/consumidora e não na condição de pedinte. Afinal, moeda ($$) não tem cor e sim valor. Esperamos que o pensamento medíocre, colonizador e pequeno de algumas pessoas possam despertar e ver que isso só as faz afundar como pessoas.

    Beijos e obrigada

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  20. Ana Paula,

    Eu acredito. Penso que a resposta sobre este tipo de comportamento precise de alguns anos de pesquisa e investimebntos na sociologia e na psicologia para compreender como certas atitudes negam a historicidade de cada um, que é igual para todas, afinal a África escravizada aqui o Brasil e na América deu origem ao que somos e aonde estamos hoje.

    Numa lógica de Michel Foucault, certamente as pessoas precisam ter seus corpos docilizados, isto é, ter uma lavagem cerebral e incutir esta idéia poluente como correta para fazer do outro objeto do seu interesse para exercer sobre ele poder. Beijos e obrigada

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  21. Lucia,

    É mole isso, Lúcia! Que situação! Que diferença faz para as relações se seus cabelos eram lisos ou crespos? Complicado, nega...

    Beijos e obrigada

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  22. Percebo uma certa repulsa na minha decisão de não assumir meu cabelo natural. Não por imposição da mídia ou da sociedade, mas por gosto mesmo. Por não me sentir bem de cabelo cacheados, por achar que não combina com meu estilo. Eu acredito que o povo negro já sofreu tanto com as imposições que cada um se sentisse no direito de colocar, e agora, quando nos empoderamos e nos damos a liberdade de escolha, é "imposto" que para eu defender minha raça, me impor e me emponderar eu preciso obrigatoriamente assumir meus cabelos cacheados. Isso as vezes cansa.

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  23. Percebo uma certa repulsa na minha decisão de não assumir meu cabelo natural. Não por imposição da mídia ou da sociedade, mas por gosto mesmo. Por não me sentir bem de cabelo cacheados, por achar que não combina com meu estilo. Eu acredito que o povo negro já sofreu tanto com as imposições que cada um se sentisse no direito de colocar, e agora, quando nos empoderamos e nos damos a liberdade de escolha, é "imposto" que para eu defender minha raça, me impor e me emponderar eu preciso obrigatoriamente assumir meus cabelos cacheados. Isso as vezes cansa.

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