Do que nós precisamos? Reflexão sobre o caso Cadiveu.


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Para quem acompanha as redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, certamente tomaram conhecimento do caso que está abalando a opinião pública até o momento, envolvendo a empresa de  cosméticos Cadiveu com o "suposto" envolvimento de racismo e discriminação onde, através de uma ação de marketing com clientes na Beauty Fair, a mesma usou perucas "black power" , com a tentativa de contrapor a imagem do cabelo afro/crespo à uma de suas soluções que a empresa dispõem. As fotos, na época, ficaram disponível no álbum de fotos da Cadiveu no Facebook.

Segundo a empresa, a ação foi criada para apresentar o lançamento da linha Bossa Nova, voltada para os cabelos cacheados e brincar com os clientes e esta idéia teve uma repercussão tão negativa, que levou os grupos de defesa étnica à se posicionarem criticamente com a atitude da empresa, denunciando-os e também apresentando nota à jornais, como esta que saiu no G1.

Fotos tiradas do álbum da empresa no Facebook.
A Cadiveu teve um posicionamento defensivo, contra às críticas, se retratando e desculpando-se pelo mal entendido, mas tentativa de justificação não teve adesão por parte da comunidade negra que, além das críticas, criaram um movimento de boicote a marca trazendo o seguinte slogan: "EU NÃO PRECISO DE CADIVEU", cujo objetivo é responder a estas e outras empresas que, o RESPEITO aos cabelos crespos em sua naturalidade, precisam ser preservados, porque ele faz parte de um processo histórico e libertário de um povo que até hoje sofre os efeitos da discriminação e preconceito que nasceram há séculos atrás.

Mesmo com três séculos que nos distanciam de um Brasil Colônia à um Brasil República, com um regime de Estado Democrático de Direito, isto é, onde TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI, na prática isso não acontece. Há ainda um sentimento de resistência ao diferente e ao que não adere ao que é comum na sociedade que, atitudes como estas, não me impressionam mais. Este tipo de conduta, por mais nocivo que seja, ao invés de nos colocarmos em condições de igualdade, acabam por ferir a identidade pessoal que temos e nos separarmos, criando barreiras ideológicas e reforçando mais ainda a idéia de que, no Brasil, existe um grupo superior ao outro (o que podemos chamar de racismo). Neste caso, a pseudo superioridade da ditadura dos cabelos lisos contra a pseudo inferioridade da liberdade de quem adere aos cabelos crespos (sejam eles naturais ou quimicamente tratados).

Embora afirme-se que não houve a intenção vexatória da exposição da nossa identidade (que é o cabelo black power, como símbolo da resistência ao preconceito racial), esta lógica se (re)produz socialmente e materialmente, de forma que as pessoas não se dão conta mais que estão agindo com discriminação contra um grupo diferenciado. Isto fica evidente nas pérolas que ouvimos por anos à fio:  "Negro de alma branca", "A coisa tá ficando preta", "Tinha que ser coisa de preto", "Essa nega aí é metida!", "Neguinho aí está fazendo isso e aquilo..." e por aí vai.


Daí me pergunto: Por quê ainda temos visões e atitudes distorcidas como estas no Brasil que já rompeu com seu passado de segregação? Por quê o preconceito, o racismo, o estereótipo e a discriminação ainda são grandes desafios à serem encarados por nós? Acredito que uma das possíveis respostas esteja na ausência de consciência histórica sobre nossa luta de inclusão e reconhecimento como indivíduos e na total falta de compromisso e sensibilidade em compreender e respeitar nosso sentimento coletivo do que é ser negro. Quando falo em respeito, me refiro ao reconhecimento do que nossos antepassados passaram, na ausência do Estado em promover direitos iguais para nós como Educação, Saúde, Cultura, Lazer entre outros. Hoje, avançamos muito socialmente, mas observando situações como esta, ainda nos remete ao tempo da barbárie, onde os valores e sentimentos alheios eram radicalmente pisados pelos grupos que estavam no poder.

Por mais que se negue, ainda temos manchas e rusgas que, tentam nos colocar em lugar de "coitados", de "subalternos" e de "inferiores" aos outros e que não temos o direito e nem o sentido de reclamar. Afinal, tudo para nós é sempre "sem querer" ou de "brincadeira", mas se fosse ao contrário, certamente o nosso lugar seria atrás das grades ou quem sabe debaixo da terra. O que será que precisaremos fazer mais para que situações como estas não tomem à proporção que foi tomada? Leis mais severas, cotas universitárias ou seja lá o que for que tratá esta consciência sobre a sociedade? Acredito que não, mas penso que, um dos caminhos está  na verdadeira união da força mobilizadora entre iguais é que fará a diferença. Quando digo isso, não falo de uma união apenas de pretos, mas daqueles que conhecem e reconhecessem nossa história de lutas.

Contudo, mesmo entre nós precisamos de alguns ajustes antes de convocarmos os outros à aderirem nossa causa. Ainda vivemos em uma utopia, quando falamos de reconhecimentos individuais e coletivos, na causa negra. Estamos juntos sim para defender causas como estas, mas ainda distantes no que tange à idéia visual do que é ser negro no Brasil. Muitas vezes ainda enxergamos o outro como nosso adversário, com o diferente e com alguém que temos que competir e não nos unirmos a ele para sermos, coletivamente, mais fortes. Isto fica claro quando percebemos o distanciamento ideológico, por exemplo, entre quem opta em usar cabelos naturais e quem usa química (como se a identidade negra fosse determinante apenas pelo cabelo na sua forma e estrutura); como é e está a invisibilidade dos negros nas mídias convencionais (papéis de destaque x papéis subalternos), e a aceitação destes nas mídias sociais ( quantos blogueiros e vlogueiros negros temos como referência neste espaço e quantos são reconhecidos por isso) entre outros, mas foco apenas na mídia visual que se reflete na tv, nos anúncios e nas mídias sociais.

São estas entre outros questões que devemos analisadas, refletidas e se conscientizadas pois nossa causa é tão grande quanto os manifestos de discriminação, racismo e preconceito que temos e que devem ser combatidos com nossa resistência, reconhecimento histórico e justiça pois precisamos estar juntos para nos fortalecermos e defendermos nossas raízes, independente das nossas escolhas, origens e o lugar que estamos.



 Beijos e até o próximo post.
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20 comentários:

  1. o cabelo cacheado tá na moda, mas o crespo tipo 4a, b,c ainda é visto como feio, ruim, bombril. Pena. Deve ser horrível se olhar no espelho e se achar feia só por q alguém disse q aquele cabelo é feio. o feio e bonito são posições impostas pela sociedade, ninguém nasce sabendo nada disso, pras crianças, o feio é o mal, e o bonito é o bom. em algum momento de suas vidas nós as contaminamos e os padrões se restabelecem. gostei das atitudes das meninas em dizer q não precisam de cadivel. e não precisam mesmo! são lindas como Deus as fez.

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  2. Emaonela Ferro,

    Isso é uma das verdades que envolvem a negação dos cabelos crespos e cacheados. O padrão inaceitável ainda são os crespos do tipo que você mencionou mesmo. O conceito de belo/feio, ruim/bom prestável e não prestável são atribuições que produzimos e reproduzimos, muitas vezes, sem nos darmos conta do que estamos falando ou fazendo.

    Muito obrigada por sua contribuição. Beijos

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  3. Assim como na moda e outros segmentos, sempre vejo pessoas diferentes em épocas diferentes abordando o mesmo assunto, mas,o que mais me dói é ver e sentir na pele o que esse post trata, nada mais nada menos do que falta de RESPEITO, um dos valores mais importantes que acho para que o ser humano viva em harmonia, o fato de uma pessoa ter cor da pele, cabelo, religião ou seja lá o que for diferente de mim, não o torna melhor nem pior que eu. Quanto a esse tipo de comportamento só tenho lamentações, pois o Homem (falo de forma generalizada) que acha que está evoluindo na verdade vive no retrocesso em que consegue ser carrasco da sua própria espécie.
    Parabéns pelo post, bjocas
    Morena Flor

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  4. Morena Flor,

    Pois é, nega. São situações isoladas como de uma pessoa física como jurídica que nos faz regredir ao tempo da barbarie que, tentava eliminar o outro que o incomodava. Hoje, se tenta fazer isso pela falta de respeito e de reciprocidade.

    Beijos e obrigada

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  5. Achei deprimente e infeliz esse marketing, péssimo gosto! O pior é ler em alguns blogs ( Não vi preconceito não...) É mole? Teve um que não aguentei e comentei dizendo que é porque o preconceito está tão entranhado na alma que sai naturalmente! Não devemos nos calar diante desse tipo de ofensa! Parabéns!

    coisasdegalega.blogspot.com.br

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  6. Marcela Marques,

    Com certeza, Marcela. Esta ação teve um quê preconceituoso e impensado pela empresa. A lógica dos singularidades alheias, acabam sendo banalizadas, porque se tornou comum não aceitar o incomum. Acredito que esta neutralidade possa ser fruto da ausência de consciência sobre si mesmo e sobre o coletivo. Beijos e obrigada

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  7. olá:
    Acredito quando ocorre uma situação dessa existem 2 lados:
    A empresa teve uma infeliz idéia na questão destas perucas sim.Não acredito ke foi de pro-
    pósito, já que eles estavam lançando a linha bossa Nova, valorizando ondas de cabelo, numa
    beauty fair queremos conhecer tendências e novidades, eu sou responsável pelo que eu falo
    sim, isto é fato, mas o modo que as pessoas en-
    tendem é problema pertinente de cada um, existem
    pessoas ke levam tudo para um lado muito particular e procuram uma deixa para gerar polêmicas.Observem na fisionomia das pessoas todas estavam a sorrir e tem negros ou mulatos nas fotos.Então porke aceitaram???????? entendi
    que era um momento lúdico.È uma empresa conceituada que atende o publico afro, usam nossos ingredientes nacionais, e com isso os
    concorrentes chamam midias, e o barulho t´feito.
    O resultado disso: tá saindo em blogs que a escova progressiva de uma linha da marca é péssima isso e aquilo.Depõe contra a empresa,dá
    emprego as matérias primas são brasileiras, açai...argila.Não estou defendendo de modo algum
    a empresa.Os nossos cosméticos estão em quarto lugar no ranking mundial e vai crescer mais,tudo
    ke vem de fora é tributado tem impostos, sai muito caro, tem muita coisa boa brasileira.Então
    antes de julgar veja se realmente precede, ouça
    outras opiniões e veja se realmente procede,preconceito podem vir em forma de violência,agressões sejam elas verbais ou não.
    Vc não pode tirar uma conclusao apenas por uma imagem visual pois nem tudo ke parecer ser real-
    mente é.Pensem nisso
    Obs: o meu respeito a todos ok

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  8. post perfeito, Fer. nao dá pra falar mais nada sobre. entra ano, século, e a história se repete:td em detrimento dos negros é dito, feito como se fosse "brincadeira". ninguem poe a mao na consciencia mesmo!e se a comunidade negra reclama, o q temos em resposta: Negro é implicante, tem mania de perseguiçao, e por ai vai. Faço relaxamento e nao preciso de Cadiveu.

    Achei curioso o post acima onde é dito que "vc nao pode ticar uma conclusao apenas por uma imagem visual pois nem tudo ke parecer ser realmente é". só tenho a dizer o seguinte: se uma empresa de cosmético quer se posicionar no mercado e nao tem o cuidado com a sua imagem visual,com o público para o qual se destina o seu produto, entao esse papo de que "nem tudo ke parece ser realmente é" nao cola mesmo! FALÁCIA!

    bj da Aline Jansen

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  9. E do que precisamos? de respeito. e no Brasil, ainda falta muito pra alcançá-lo. parece algo utópico, né? Aline Jansen

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  10. A questão do negro vai muito mais além de cabelo, muitos nem sua identidade assumem. Se usa ou não usa química, não me importa, não será menos negro por isso. Vejo negros se gabando de ter cabelo natural e se tornando pessoas que não respeitam quem opta pela química, apontendo o outro, agridem as pessoas. Não concordo com o marketing da empresa, foi ofensivo, mas há quem opte por usar o cabelo com química, seja desta empresa ou não, e isso não podemos negar.

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  11. Anônimo,

    Sua exposição também faz total sentido. A iniciativa da empresa está sendo vista por um modo particularizado por parte dos movimentos de defesa dos cabelos crespos, em outras palavras, quero entender ser do movimento negro, pois o uso da peruca "Black Power", seja de cabelos naturais ou artificiais, é um objeto simbólico de luta e resistência da mulher negra pelo respeito às suas escolhas e aos seus espaços. Tenho certeza também que a empresa não daria "um tiro no próprio pé", fazendo isso de propósito e depois ficar mal vista pela sociedade. A questão é que mexeu com uma coisa muito particular que muitos preservam, que é a subjetividade.

    Sobre a aceitação do público na feira, com certeza, foi consentinda; mas certamente, ninguém pensou por este outro lado.

    Beijos e obrigada

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  12. Aline Jansen,

    Obrigada querida e é este o caminho que estamos seguindo. Sou contra o alarde com xingamentos e baixarias, mas totalmente à favor de uma linha de diálogo estimulando reflexão e consciência sobre a questão das negras e negros no Brasil.

    Muito obrigada. Beijos

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  13. Helena,

    Você foi justamente no tocante da questão deste post: o que está para além do caso Cadiveu e a lógica do preconceito entre nós negros. Nesta hora é o momento de darmos às mãos, mas passado isto, todas voltarão para seus lugares: algumas com cabelos naturais, outras com cabelos quimicamente tratados, àquelas que tem peles mais escuras e as outras que tem pele mais clara e assim vai.

    É de suma importância sim, lutarmos pelo respeito às nossas raízes e valores, mas é fundamental aprender a olhar o outro de igual para igual e não compreendê-lo como uma ameaça. Beijos

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  14. Concordo com você Fernnandah, toquei neste ponto porque acompanho muitos blogs, grupos do Facebook e tudo relativo a cabelos crespos e cacheados e percebi que muitas das pessoas que encabeçaram o movimento contra a Cadiveu, por muitas vezes são aquelas que apontam outro negro que tem o cabelo quimicamente tratado, então até que ponto este movimento foi sério se você não aceita o negro que está ao seu lado por optar por um caminho diferente? Por isso que usar a empresa como bandeira para auto-afirmação não me pareceu sensata, li fatos bem desagradáveis, xingamentos...Temos que lutar sim por nossas raízes, mas primeiro saber que se é negro não só porque se usa um black power.

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  15. Acho inocencia se acreditat que não há mais racismo e segregação no mundo não só no Brasil, o ser humano apenas tolera mas na origem todos nós temos nossos preconceitos, quem disser que não tem pra mim mente.

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  16. Eu sinceramente não vejo nada demais... Q nem aquela confusão q teve com o logo da Bom bril, não sei da onde começa esse bafafa todo.
    Alguns negros se sentem tao inferiorizados por dentro que qualquer coisa eles pulam alto da cadeira.

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  17. Opiniões bem diferentes por aqui ne?!
    mas olha, a minha é de que o fato da empresa ter colocado as pessoas com esses cartazes aí, "eu preciso de cadiveu" soa como que se vc não usar cadiveu vc está perdida... Quase como aqueles "antes e depois" de transformações de beleza, primeiro a mocinha ta triste na foto e depois, com o cabelo alisado ta sorridente.. entende?

    Poderia até soar como simples marketing de este produto ser melhor do q o de outras empresas, mas no caso em questão, não foi assim.
    Beijo

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  18. e eu estava olhando uns comentários do pessoal da empresa dizendo que foi uma brincadeira colocar as perucas no pessoal la na feira...
    putz.. brincadeira???

    RIDÍCULO, vergonhoso, afins... e ponto!

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  19. Adorei sua abordagem sobre o tema.
    Também falei sobre...

    http://filhadejose.blogspot.com.br/2013/02/nao-preciso-de-cadiveu.html

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  20. Eu gostei da veia simpática da campanha e acredito que a intençao da marca passa bem longe de ofender a comunidade afro-descendente do Brasil, pois seria de uma tremenda burrice ofender um grupo tão imenso de consumidores potenciais. Acho que se eu fosse parte da comunidade negra me ofenderia muito mais em ver negras renegando sua negritude ao pintar seus cabelos de louro, ou mesmo, alisando cachos e correndo risco de perder os cabelos com formol. Teria raiva em ver artistas americanas com suas perucas louras e lisas, em total desrespeito a qualquer "identidade" que sua cor de pele possa significar. Pense nisso também, Criloura.

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